Perfil: Uma luta pelo Negro

Presidente Prudente

 

quarta-feira, 4 de março de 2008 

 

 

 EDIMA MATTOS

A voz da comunidade negra* 

Passa de uma década o ecoar da voz de Édima de Souza Mattos na incansável luta pela valorização do negro. Seu trabalho não se registra ao discurso. Sua ação é grandiosa. Atua em equipe. Dentre as conquistas constam a redução da evasão escolar de crianças negras numa cidade em que 46% da população é de afro-descendente. No início da década de 90 era de 68% o índice de abandono dos estudos antes de concluir a terceira série do ensino fundamental em Presidente Prudente.  

A 400 quilômetros de Salvador, em Arapiranga no interior da Bahia. Édima de Souza Mattos nasceu no dia 8 de setembro de 1949. Sua terra natal tinha naquela época a economia sustentada na extração de ouro. Seu pai foi minerador. João Francisco de Souza também era construtor. Sua mãe Adozinda Amélia Oliveira Souza cuidava da casa, do marido e três filhos dos quais Édima foi a primogênita. Seus dois irmãos são falecidos.  

O nome de sua mãe reflete o interesse da família pelos estudos. Seu avô encontrou Adozinda na literatura portuguesa. Nome de um poema de Fernando Pessoa, uma das maiores expressões do lirismo lusitano. Édima e seus três filhos cultivam o hábito do avô e bisavô. O que ela não tem é o sotaque baiano. Explica-se: veio para a região sudeste do Brasil com dois anos de idade. Atraídos pela prosperidade das lavouras de algodão, os pais de Édima trocaram Arapiranga por Ribeirão dos Índios. Lá ficaram três anos. Fizeram nova troca. Foram para Presidente Bernardes, onde a menina estudou até o terceiro ano primário. Estava com dez anos de idade quando mudou-se para Presidente Prudente. Estudou na Escola Estadual Arruda Mello. Fez o curso Normal no Instituto Estadual Fernando Costa. 

Concomitantemente a normalista estudava no Centro Cultural Brasil-Estados Unidos. Aos 16 anos de idade lecionava inglês na escola de Comércio Joaquim Muritnho que para a época tinha status de universidade. Seu primeiro curso superior foi na Faculdade de Letras de Adamantina. Mais tarde fez pedagogia na Universidade do Oeste Paulista (Unoeste). Possui três títulos de pós-graduação. São os de literatura, inglês e educação, com especialização em produção de texto. Fez vários cursos de especialização.  

Em 4 de janeiro de 1970 – ano glorioso tricampeonato mundial de futebol para o Brasil – Édima casou-se com o contador bancário Eli Dolci Justo de Mattos. O conheceu no footing da rua Maffei, no trecho entre a rua Siqueira Campos e a avenida Coronel Marcondes. Era o point da época. Moças e rapazes se encontravam aos domingos das 18h às 21h. Havia horário de voltar para casa. A sessão dos cinemas tinhas início às 18h. Quando a moçada deixava a sala de exibição, chique era ir à Panificadora Soberana.  

Do casamento de Édima e Eli nasceram três filhos. Curiosamente todos entraram na universidade aos 17 anos, sem que tenham feito cursinho. Eduardo é engenheiro químico pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Elisângela fez engenharia de alimentos na Unesp de São José do Rio Preto. Elaine faz o segundo ano de direito na Universidade de São Paulo (USP).  

Aposentada como professora da rede estadual de Ensino, Édima continua trabalhando. Leciona no colégio Cristo Rei. Há 14 anos está na Unoeste. Dá aulas nas faculdades de Letras e de Comunicação Social. Foi delegada e atualmente é a representante regional do Conselho Estadual de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, nomeada no primeiro mandato do governador Mário Covas. Seu trabalho é voluntário.  

Vem de longa data sua militância no movimento que luta pela ascensão social do negro. Uma luta que foi institucionalizada em 1988, quando convidada pela secretaria estadual da Cultura a integrar a comissão que elaborou o calendário de comemorações do centenário da abolição da escravatura no Brasil. Dois anos mais tarde estava empenhada no combate e evasão escolar de crianças negras, especialmente meninos que no máximo chegavam a terceira série do ensino fundamental. O índice de abandono era de 68%. Para reduzi-lo foi necessário visitar cada escola e as famílias. Constatou-se que a discriminação provocava brigas. O menino negro era taxado como aluno problema. O trabalho liderado por Édima conseguiu reverter a situação numa cidade em que 46% da população é de origem negra.

A presença dos negros em Presidente Prudente explica-se pelos grupos que vieram de Minas Gerais e da Bahia para se empregas nas obras de construção da estrada de ferro. O mesmo ocorreu em Sorocaba. O cultivo do café também contribuiu com a presença negra. Para Édima o único caminho de ascensão do negro é a escola. Fala por sua história de vida. Vencido o problema da gigantesca evasão, hoje Édima comemora a presença do negro no terceiro grau, numa escala cada vez maior. 

Existe uma luta de âmbito nacional para que o negro estude. Uma associação em São Paulo, chamada Afro-brasileira, trabalha no sentido de abrir as portas nas universidades oficiais. Existe projeto para que as universidades reservem 5% das vagas aos negros. Nas universidades particulares são buscadas bolsas de estudos aos afros-descendentes. A conscientização do negro em relação à sua própria realidade tem ajudado no avanço das conquistas. 

Em Presidente Prudente o movimento organizado ganhou projeção com Édima, mas ela conta que já havia um trabalho anterior desenvolvido pelo jornalista José Vinícius Barbosa da Silveira e pelo professor e radialista Ivan Benedito da Silva. “Através deles iniciei minha militância” diz. Édima não aceita que sua ação seja  qualificada como luta pela segregação racial. O trabalho que fez é exclusivo para inserir o negro no mercado de trabalho. 

Afirma que existe preconceito. Uma discriminação manifestada de várias formas, inclusive cordial. É aquela do cidadão que se diz despido de preconceito, desde que sua filha não case com negro ou o filho com uma negra. O sociólogo Milton Santos tratou do assutno recentemente no caderno Mais da Folha de São Paulo, com afirmativa de que ser negro é viver com o preconceito cordial. Na mesma publicação conclama os negros para que busquem novos caminhos com seus próprios pés, pernas, braços e cabeças.  

Édima, uma mulher de valor, vê a máxima de sua luta em sábias palavras do líder do movimento pela igualdade civil dos negros norte-americanos, o pastor Martin Luther King: “Não somos o que gostaríamos de ser. Não somos o que deveríamos ser. Mas graças a Deus não somos o que fomos”. 

*Matéria publicada em 27 de maio de 2000 no jornal O Imparcial de Presidente Prudente. Texto e reportagem de Homéro Ferreira.        

 

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