Perfil - Rita de Cassia Bonfim Higa

Presidente Prudente

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

 

Rita Higa

*Mensageira da felicidade

 A menina pobre da Tijuca cresceu com o sonho de ser médica. Superou as dificuldades econômicas com muita força de vontade. Eliminou as barreiras da competitividade, que certamente são maiores numa cidade com 15 milhões de habitantes como é o Rio de Janeiro. Chegou lá. Venceu. Assumiu a bandeira da cruzada contra o uso indevido de drogas. Tem devolvido a vida para jovens que se afundaram no abismo da dependência química. A médica Rita de Cássia Bomfim (realmente com dois emes) Higa é uma voluntária de primeira grandeza.

Filha do dedetizador José Osmar e Dirce, Rita nasceu na antevéspera do Natal de 1960. É a caçula de dois irmãos. O primogênito Paulo está morando em Presidente Prudente há nove meses. A falta de recursos obrigou Rita a estudar em escolas públicas, do primário ao terceiro grau. Aos 12 anos de idade, como melhor aluna da turma ganhou um curso de inglês. Durante cinco anos obteve as melhores notas da classe, até pela necessidade de continuar estudando de graça.

No vestibular de ingresso no Colégio Paulo de Frontin ficou em primeiro lugar. Foi aprovada no primeiro vestibular que fez na Universidade Estadual Fluminense, numa concorrência de 60 por 1. Já aos 14 anos de idade freqüentava a maternidade para assistir partos. Oportunidade em que conheceu o então estagiário do tercerio ano de Medicina, Oscar Haruo Higa. Um prudentino que estudou no rio. Com ele namorou noivou e casou. O casamento os trouxe a Presidente Prudente. 

Formado e com residência médica concluída, Oscar voltou à sua terra para atuar na profissão. É cirurgião e gastroenterologista. O casamento ocorreu em 1981. Dele, resultaram três filhas: Keila e Karine que estão se preparando em São Paulo para prestar o vestibular de Medicina, e Kátia que está no primeiro ano do segundo grau. Ao mudar-se, Rita trancou matrícula. No ano seguinte, voltou ao Rio. Fez mais seis meses do curso, para não perder o direito de continuar os estudos. 

Tornou a trancar a matrícula em 1984 conseguiu transferência. Concluiu a faculdade na Universidade Estadual de Londrina  (UEL). Lá fez residência médica. Escolheu a medicina preventiva e social, na área de saúde ocupacional e toxicologia. Buscou especialização em São Paulo nos institutos Butantã e da Criança, no Hospital do Jabaquara e no setor de serviço ocupacional do Sesi. 

Em 1991, retornou a Presidente Prudente como profissional. Trouxe o projeto escolhido pela Secretaria Estadual de Saúde para representar São Paulo como excelência em centro de intoxicação. Foi aí que nasceu o Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) numa ação conjunta como Lions Cinqüentenário. O Ceatox foi implantado na Santa Casa. Atualmente funciona no Hospital Estadual de Presidente Prudente. 

O Ceatox é centro de excelência para treinamento de profissionais e que possibilita o esclarecimento de dúvidas nos tratamentos de intoxicação, além de oferecer atualização. Sua instalação implicou em decréscimo vestiginoso de morbidade e mortalidade em Presidente Prudente e região. São cerca de 900 atendimentos/ano. Nos últimos nove anos, nos casos atendidos pelo Ceatox ocorreram 12 óbitos. Um índice baixo. Antes, intoxicação era a quinta causa de morte e a terceira de internação na cidade e região.

Agora, Rita está empenhada em conquistar outro benefício de caráter reginal. Faz de sua tese de doutorado o estudo do Ciclohexano, um solvente utilizado na produção de álcool e que começa a substituir o Benzeno que foi proibido por causar câncer, leucemia e anemia. Num .trabalho preventivo, a médica, estuda que tipo de dano o novo solvente pode causar aos 3.800 trabalhadores na indústria sucoalcooleira da região. A tese é defendida na Universidade de São Paulo (USP). 

O trabalho voluntário no combate ao uso indevido de drogas nasceu da especialização no Hospital do Jabaquara, quando foi procurada por um comandante da Polícia Civil que vivia o problema em casa, com uma sobrinha. Rita quis conhecer as drogas como a maconha e cocaína. Entrou para o Departamento de Narcotráficos (Denarc). Trabalhou com o grupo do doutor Alberto Corazza. Era 1982, quando o flagelo de muitas famílias de jovens moveu sua alma. Decidiu ser uma mensageira, na tentativa de devolver a felicidade para gente desgraçada pelas drogas.  

Em Presidente Prudente saiu a campo num trabalho que está incorporado à sua rotina. Faz palestras e dá cursos. Especialmente em escolas públicas os convites são tantos que muitas vezes tem dificuldade de agenda. Conta que numa determinada ocasião fechou o consultório e nos cinco dias úteis de uma única semana fez 12 palestras. Na última, sua voz mal saia da garganta.  

Num exame de consciência, questionou a loucura em que havia se metido. A resposta veio de uma jovem que se aproximou para agradecer o fato de tê-la ouvido alguns anos antes. Sua palestra a fez mudar de vida. A jovem contou que tinha deixado o vício e retornado os estudos. Estava fazendo o último ano de Farmácia Rita viu que sua luta não era em vão, o que tem sido ratificado por outros depoimentos igualmente motivadores.

No combate às drogas e à prevenção de intoxicação ocupacional Rita atende grandes empresas como a Coca Cola Projet e o complexo petroquímico da Bahia. Tem trabalhado no exterior, a convite de grandes empresas e da Organização das Nações Unidas (ONU). Já esteve na França , Alemanha, Inglaterra, País de Gales, Espanha, Suíça, Taiwan, Japão, Filipinas, Canadá (duas vezes) e Estados Unidos (seis vezes). Rita acaba de retornar das Filipinas. Lá esteve por quarenta dias, fazendo parte do intercambio de Grupo de Estudos (IGE) patrocinado pelo Rotary. Voltou fascinada com a amabilidade povo filipino. Diz que nenhuma de suas viagens internacionais foi tão importante como esta, pelo enriquecimento profissional e cultural.

No plano pessoal, Rita vê a relação com suas filhas como uma coisa muito positiva. Busca dar a elas o aspecto qualitativo de sua presença e a de seu marido. Com formação evangélica, as três moças são habituais freqüentadoras da igreja e de grupos de orações. Rita revela que tem no marido o exemplo de médico e de homem. O vê como um pai que é quase mãe. Na vida corrida, pai e mãe se revezam na atenção às filhas. Oscar exerce a profissão de médico e dá aulas na Faculdade de Medicina da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste). Rita, além das atividades, já mencionadas, responde pelo setor de toxilogia do Hospital Universitário e também leciona na mesma universidade.

A carioca estudiosa e falante, diz que se pudesse seria o Menino do Dedo Verde. O personagem de um livro infantil cujo dedo toca em feridas que viram flores. Sua figura bíblica é o Rei David. Aquele cheio de problemas, mas com muita paixão pelo ser humano. O homem com a coragem de pegar uma pedrinha para enfrentar um gigante. Rita conta que ama o ser humano e pede às pessoas para que nunca desistam de seus sonhos, “pois, ainda que seja impossível alcançar as estrelas, a gente deve mira-las sempre”.       

*Matéria publicada em 11 de maio de 2000 no jornal O Imparcial de Presidente Prudente. Texto e reportagem de Homéro Ferreira.

 

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