Produção científica é tímida em relação aos resíduos sólidos

 

Presidente Prudente, quarta-feira 31 de agosto de 2016


Ao enxergar o grave problema socioambiental gerado pelos resíduos sólidos como um desafio multiprofissional, a pesquisadora Sylmara Lopes Francelino Gonçalves Dias  (foto) classifica como tímida a produção científica nesse setor.  As pesquisas são poucas e se prendem à base de uma pirâmide invertida, tratando de questões sociais e dos aterros sanitários, sem alcançar dimensões maiores e extremamente complexas como é o caso do fluxo reverso que representa um nó para a reciclagem que apresenta alto custo em logística: coleta, transporte e triagem.

Sustentada em amplo conhecimento técnico científico, sua fala teve a finalidade de instigar o público, formado por profissionais de diferentes áreas, presente na conferência de abertura do 1º Simpósio Nacional de Meio Ambiente e do 4º Simpósio de Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, na manhã desta quarta-feira (31) no auditório Primavera, no campus II da Unoeste. As realizações são do Programa de Mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, vinculado à Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação (PRPPG).

Os simpósios contaram com o apoio do Núcleo de Estudos Ambientais e Geoprocessamento (Neageo) e aporte financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão do Ministério da Educação (MEC). A conferência, precedida da fala da coordenadora do mestrado Dra. Alba Regina Azevedo Arana, abriu a vasta programação de quatro dias, indo até sábado (3) e foi desenvolvida em cima do tema “Reflexões em torno de resíduos sólidos no contexto brasileiro: relevância da pesquisa e desafios da política e gestão ambiental”.

Para a Dra. Sylmara o assunto em termos de ensino superior não se restringe à pesquisa, devendo ser alcançado também pelo ensino e pela extensão.  Admitiu que o acanhamento está deixando de ser excessivo, na medida em que a comunidade científica tem se apresentado com um pouco mais de força na agenda das políticas públicas ambientais. E seu pensamento manifestado é de que as pesquisas possam contribuir com essas políticas, vistas como necessárias para o país e até para mundo, que vive um problema iniciado há mais de 200 anos, com o advento da Revolução Industrial.

No processo produtivo, que tem a natureza como recurso, o antropocentrismo humano provoca desconexão cada vez mais acentuada diante do crescimento ilimitado, resultando no grande problema do século 21: produção em massa, consumo em massa e descarte em massa, inseridos num processo linear no qual os produtos duram cada vez menos. “É a lógica da economia: compre, use e jogue fora. Estamos sobrecarregando o planeta, além da capacidade de regeneração, com a predominância de produtos sintéticos; portanto, não biológicos”, disse a pesquisadora vinculada à USP.

Dentre exemplos da ação destrutiva do ser humano, apresentou alguns dados estatísticos de resíduos sólidos na cidade de São Paulo: 17 mil toneladas de lixo por dia, somente de lixo doméstico; de 20 a 25 toneladas diárias de entulho da construção civil; 5 mil cemitérios de carros, entre os oficiais e os clandestinos; 1 milhão de toneladas de alimentos jogados fora por semana em 871 feiras livres; 12 toneladas de lixo por dia nas 1,2 mil indústrias de confecção. Em termos de Brasil, em 2010 ocorreu o descarte de 15 bilhões de garrafas pet e somente 60% foram recicladas; restando 9 bilhões.

O lixo produzido no mundo chega a 30 bilhões de tonelada por ano e o ranking sobre os maiores impactos apresenta os seguintes percentuais para as seguintes cadeias produtivas: pecuária 39%, mineração 38% e, agricultura 19%. “Consumo e resíduos são duas faces da mesma moeda: aumenta produção e reduz duração; aumenta consumo e cresce o descarte. Portanto, a causa nós sabemos, mas ainda não sabemos a saída. A pesquisa científica pode e deve contribuir, mas não somente ela. São necessárias articulações para avançar na formação, na pesquisa, na extensão, em gestões públicas e privadas, políticas públicas, adoção de práticas sustentáveis e tomada de consciência pela sociedade”, pontuou.



Durante a tarde houve mesa-redonda sobre saúde e meio ambiente, relacionada aos resíduos e suas consequências em doenças tropicais, com foco no Aedes aegypti. O debate foi motivado por Maria de Lourdes da Graça Macoris, da Superintendência de Controle de Endemias, e o pesquisador Luiz Euribel Prestes Carneiro, tendo como mediador o Dr. Marcus Vinicius Pimenta Rodrigues; ambos do mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional. A programação segue nesta quinta-feira (1), sexta (2) e sábado (3), no campus II da Unoeste e o encerramento cm visita técnica da Usina Conquista, em Teodoro Sampaio, empresa do setor sucroenergético.

Este é um projeto educacional sem fins lucrativos.
Ajude-nos a manter este projeto em funcionamento.
Doar