Estudo sobre lodo pode subsidiar mudança de norma da Cesteb

 

Presidente Prudente, terça-feira 18 de dezembro de 2012  

 

A utilização de lodo de curtume em cultivos agrícolas e pastagens deve obedecer critérios legais, entre os quais está a norma da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). Regulamentação que permite a aplicação a campo, de forma extensiva, de até 5 mil quilos por hectare. Delimitação que tem implicação no impacto dos atributos biológicos e químicos, como é o caso da presença de cromo, variável entre 2 e 3%. O processo de reciclagem na indústria não consegue extrair o produto químico em 100%. Porém, pesquisa feita com a produção de mudas para reflorestamento apresenta resultados que sugerem a viabilidade de mudança na norma. 

 

Embora voltado para outra finalidade, experimento desenvolvido na Unoeste oferece embasamento para subsidiar alteração no dispositivo legal. É o que anuncia o orientador da pesquisa desenvolvida pela engenheira ambiental Daniele Mozzini Silva (foto), doutor Fábio Fernando Araújo, ao presidir a banca de avaliação de dissertação no Mestrado em Agronomia, na manhã desta terça-feira. (18). Na condição de membro da câmara ambiental da cadeia produtiva do couro, Araújo levará o assunto para debate em São Paulo e vê com otimismo a possibilidade de aceitação. 

 

 

No trabalho científico o lodo de curtume misturado em substrato comercial foi acondicionado em tubetes, de tal forma que houve distribuição uniforme dos nutrientes, incluindo o baixo percentual de cromo, de tão forma a não provocar interferência negativa. O que representa 22 quilos por hectare. Portanto, 400 vezes menos se comparado com 5 mil quilos ditados pela norma vigente. “O experimento que preconiza lodo no substrato reduz a utilização de menos lodo e promove distribuição mais uniforme de nutrientes, além de não exalar mau cheiro”, explica Araújo. 

 

Sua recomendação para discussão na Cetesb é de que a norma estabeleça a produção de substrato já com a mistura de 25% de lodo, o que por si só consumiria todo resíduo dessa natureza, gerado pelos curtumes. “É algo que causaria grande impacto sócio ambiental”, estima. Por esta viabilidade e mesmo diante do que já ocorre, utilizando linguagem figurativa, o lodo de curtume dá um salto de vilão a herói. Se antes era exclusivamente agente poluidor, de uns tempos para cá vem sendo pesquisado e utilizado em cultivos agrícolas e pastagens, por possuir elevado teor de nutrientes e potencial para neutralizar acidez do solo. 

 

 

O mais recente experimento nesta área é o de Daniele, com a utilização na produção de mudas para reflorestamento. Dentre cinco espécies avaliadas, as respostas mais significativas foram da aroeira salsa, eucalipto e mutambo. O lodo de curtume foi utilizado como componente de substrato comercial, com a aplicação de cinco doses crescentes, possibilitando comparativos de zero a 25% entre cinco espécies nativas e exóticas próprias para reflorestamento. 

 

As espécies foram aroeira salsa, apropriada para recuperar solos degradados; mutambo, utilizada em vias e espaços públicos; angico vermelho, que serve para recuperação de matas ciliares; eucalipto, empregado na produção de celulose e carvão; e angico branco, que fornece madeira para as construções naval e civil. O estudo comprometido com a sustentabilidade obteve a matéria no Curtume Vitapeli e o cultivo das mudas foi feito no Viveiro Vitória Régia. 

A condução do experimento promoveu a secagem do lodo a 65 graus, durante cinco dias em estufa. Peneirado, foi misturado a substrato comercial nas dosagens de 5% a 25%, saltando de cinco em cinco. Foram seis tratamentos, incluindo o que não recebeu a mistura (0% de lodo), com cinco plantas cada e o total de 30 exemplares. Os estudos estiveram voltados para avaliar resultados obtidos com o substrato misturado ao lodo que oferece melhoria de fertilidade do solo e nutrição das plantas. 

 

As análises foram feitas com 60 dias após a semeadura, quanto à altura, e 120 dias sobre a produção de biomassa (raiz e parte aérea). Os melhores resultados foram encontrados na dosagem de 25%, com melhor absorção de nutrientes e macro nutrientes. Nas imagens apresentadas durante a defesa da dissertação, num comparativo entre a planta no recipiente sem o lodo, chamada de planta testemunha, em termos de altura a aroeira salsa e o eucalipto apresentaram o dobro do tamanho e a mutambo o triplo. 

 

 

A banca esteve composta pelos doutores Fábio Fernando de Araújo (orientador), Carlos Sérgio Tiritam e Amarílis Beraldo Rós, na condição de membro externo, convidada junto a Agência paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) em Presidente Prudente. A sessão foi acompanhada pelo doutor Ademir Sérgio Ferreira Araújo, coordenador do Mestrado em Agronomia da Universidade Federal do Piaui. Daniele Mozzini Silva foi aprovada para receber o título de mestre em Agronomia, pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Unoeste.  

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